segunda-feira, 18 de agosto de 2014

PIB dos EUA cresceu mais em governos democratas



Sorte democrata: bom desempenho do PIB foi puxado por investimento do setor privado e consumo de bens duráveis
A economia americana cresceu bem mais durante governos democratas do que em administrações republicanas no período posterior à Segunda Guerra Mundial, em boa parte devido a uma considerável dose de sorte. Na média, os presidentes democratas tiveram em suas gestões choques do petróleo mais favoráveis, maior expansão da produtividade e expectativas do consumidor mais otimistas. Esse é o panorama traçado por um estudo dos economistas Alan Blinder e Mark Watson, da Universidade de Princeton, que examina os motivos dessa disparidade de desempenho. A diferença não parece resultar da condução da política econômica, afirmam eles.
Entre o segundo mandato de Harry Truman (1949 a 1953) e o primeiro de Barack Obama (2009 a 2013), os EUA cresceram a uma média anual de 3,33%. Nesse período, o país avançou a uma média de 4,35% ao ano nas gestões democratas e de 2,54% nas republicanas. "Sem dúvida, os democratas gostariam de atribuir a grande diferença de crescimento a melhores políticas macroeconômicas, mas os dados não apoiam essa afirmação", escrevem os autores. Ex-vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), Blinder foi membro do Conselho de Consultores Econômicos do democrata Bill Clinton entre 1993 e 1994.
A maior parte da disparidade no ritmo de expansão entre as administrações dos dois partidos vem do investimento das empresas e dos gastos em bens duráveis, ocorrendo sobretudo no primeiro ano de mandato, dizem os autores.
Nas estimativas dos economistas, os preços do petróleo parecem explicar entre um oitavo e um quarto da diferença do crescimento do PIB entre governos democratas e republicanos. Para eles, isso se deve em grande parte à sorte. Ninguém tende a atribuir a decisões dos EUA os choques nos anos 1970, devido a ações da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), afirmam os autores. "Mas não vamos esquecer que a Guerra do Golfo no governo de George Bush (pai) e, especialmente, o começo da Guerra do Iraque na administração de George W. Bush foram decisões de política dos EUA", ressalvam, ao comentar ações dos dois republicanos.
Ao analisar o desempenho da produtividade, a maior parte da explicação da diferença se deve a grandes choques positivos nos governos democratas de Truman e de John Kennedy-Lyndon Johnson (1961 a 1969) e um choque negativo na primeira gestão do republicano Ronald Reagan (1981-1985). Embora tenham herdado um crescimento do PIB mais fraco, os democratas também tiveram como legado uma expansão mais favorável da produtividade. Assim como a questão dos preços do petróleo, os autores consideram os choques de produtividade "principalmente como reflexo da sorte". No entanto, dizem que não se deve descartar um "componente de políticas".
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A confiança mais forte dos consumidores nos governos democratas também contribui para explicar a diferença de desempenho. Segundo Blinder e Watson, essa questão chega perto de "uma profecia autorrealizável, na qual consumidores corretamente esperam que a economia vá melhor com os democratas, e então fazem isso ocorrer, ao comprar mais bens de consumo duráveis".
O estudo analisa uma série de outros fatores, e não encontra evidências de que eles expliquem por que a economia cresce mais nos governos democratas. As reações da política fiscal, por exemplo, não diferem muito entre os partidos. O déficit público nas administração democratas ficou em média em 1,5% do PIB, menor que os 2,2% do PIB nas republicanas, mas não é algo estatisticamente significativo.
Ao examinar a política monetária, o estudo afirma que, se alguma coisa, ela seria mais favorável ao crescimento nas gestões republicanas, ainda que a economia tenha melhor desempenho sob presidentes do Fed indicados por presidentes democratas. Há uma pequena tendência de alta dos juros nos governos democratas e queda nos republicanos, sugerindo que o Fed normalmente faz aperto monetário nas gestões dos primeiros.
Blinder e Watson descartam que os gastos militares sejam os responsáveis pela diferença. Na média, essas despesas cresceram 5,9% sob os democratas, mas apenas 0,8% nos governos republicanos. "No entanto, em média, os gastos com defesa respondem por cerca de 8% do PIB no período do pós-guerra. Seria difícil para um rabo tão pequeno balançar um cachorro tão grande". A grande diferença está associada à Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953. Tirando o segundo governo Truman (1949 a 1953) da conta, o aumento desses gastos fica em média em 1,2% nos governos democratas.
O estudo destaca que ainda há muito a explicar sobre essa disparidade. "Juntos, esses três fatores de 'sorte' (petróleo, produtividade e confiança dos consumidores) explicam de 46% a 62% da diferença de crescimento de 1,8 ponto percentual entre os governos democratas e republicanos. O resto permanece, por ora, um mistério de um continente ainda em grande parte inexplorado".
Por Sergio Lamucci | De Washington


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